PESQUISA
O desejo de construir uma carreira e crescer dentro de uma empresa pode parecer distante para uma geração que presenciou o nascimento dos influencers, YouTubers e TikTokers. Apesar disso, foi o que 75% dos jovens entrevistados pelo Instituto PROA – instituição que capacita e promove a inclusão produtiva de jovens vindos de escolas públicas – afirmaram querer seguir como caminho profissional. Este é apenas um dos dados que a pesquisa inédita revela nesta quinta-feira (18). Os resultados, que contam com mais de 400 jovens e 129 empregadores, mostram um retrato que contradiz estereótipos atribuídos à Geração Z em relação ao mercado de trabalho formal.
Essa constatação evidencia uma grande ambição – muitas vezes questionada – da juventude periférica, que representa a maior parte dos alunos do PROA. Na Pesquisa, o desejo de empreender também aparece, mas muito mais como uma necessidade diante da falta de alternativas. Segundo Michelle Claro, coordenadora de Captação e Dados do Instituto PROA, é possível perceber na fala dos jovens que “o empreendedorismo e trabalho informal muitas vezes se confundem, reforçando que se trata de um recurso de sobrevivência, e não de um projeto de futuro.”
Para Alini Dal’Magro, presidente e CEO do Instituto PROA, o principal diferencial do estudo é evidenciar a especificidade da juventude periférica, e evitar colocar toda a Geração Z dentro de uma caixinha homogênea. “Algo que percebemos quando fizemos a pergunta de volta para as empresas é que há um grande desafio geracional. A nova juventude é rotulada de diversos estereótipos que, muitas vezes, não traduzem a realidade de jovens periféricos, como falta de comprometimento ou imediatismo”, destaca a CEO.
Empregando a Geração Z
O Brasil é uma nação que ainda enfrenta grande desigualdade social em toda sua extensão territorial. A nova geração, apesar de nascida no mesmo período, ainda é plural, com etnias, raças e recortes sociais distintos. A pesquisa do Instituto PROA parte do entendimento de que, com isso em mente, a empregabilidade também precisa levar esses fatores em consideração para que haja uma aproximação real entre o jovem contratado e a empresa.
A falta de qualificação técnica, um dia considerada como principal desafio de inserção no mercado formal, já não é o que chama mais atenção. O estudo do PROA indica que a retenção dos jovens pode ser tão desafiadora quanto o ingresso. Uma das principais dores dos empregadores é a alta rotatividade em suas empresas: 31% relatam alta rotatividade ao passo que 83% esperam que os jovens permaneçam até três anos. Apesar de apenas 35% terem programas de desenvolvimento, a grande maioria (86%) estaria disposta a adaptar processos internos, como implementar políticas estruturadas de permanência.
“A alta rotatividade não é causada pela ‘impaciência’ dos jovens, mas sim pelo desalinhamento entre o discurso e a prática empresarial. Os jovens sonham com permanência e crescimento dentro das empresas que trabalham, mas precisam se sentir pertencentes àquele espaço para desejarem permanecer”, complementa a CEO do Instituto.
Outro ponto que desafia percepções recorrentes é a relação com o trabalho remoto. Para a juventude periférica ele é visto também como uma estratégia para reduzir gastos com transporte e alimentação ou evitar longos deslocamentos em transportes públicos, e não apenas pela maior flexibilidade. Para eles seria, sim, um ponto positivo da vaga, mas não algo inegociável.
A pesquisa também mostra que o engajamento desse jovem importa, e muito, para as empresas. Quando eles se sentem motivados e pertencentes, o impacto direto é em produtividade e lucratividade. Nesse processo, a liderança aparece como peça-chave: gestores preparados para ouvir, orientar e dar feedback estruturado são decisivos para retenção e desempenho.
“A nossa pesquisa mostra que não basta inserir o jovem no mercado de trabalho. É preciso criar ambientes que deem sentido ao que eles fazem, valorizem sua trajetória e ofereçam espaço para crescer. Quando encontram acolhimento e reconhecimento, os jovens se engajam e contribuem de forma concreta para os resultados das empresas”, afirma Alini.
O que o recorte social tem a dizer?
A maioria dos jovens entrevistados enfrenta uma rotina marcada pela sobrecarga. Quase 70% vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos e dividem a casa com três ou mais pessoas. Embora morar com a família não seja necessariamente um problema, o cruzamento com os dados de renda revela um cenário crítico: em muitos casos, trata-se de famílias vivendo com menos de um terço de salário-mínimo por pessoa.
Michelle Claro ressalta que toda análise precisa considerar o cenário de forma ampla. Ela, que também é cientista social, explica como trazer esse viés para a leitura dos dados enriquece as conclusões do estudo.
“Conseguimos reunir em dados o que já acompanhamos no dia a dia, tanto com os jovens quanto com as empresas. Quando analisamos o que coletamos a partir de um olhar social, podemos enxergar nuances que nos ajudam a entender de verdade a realidade desses jovens para, assim, aprimorar nossa atuação enquanto mediadores”, ressalta a pesquisadora.
Onde os dois mundos convergem
O papel do Instituto PROA é atuar tanto na capacitação do jovem quanto na sua inserção no mercado de trabalho. Por isso, sua relação com ambos os lados a coloca em um lugar crucial de mediadora. Para Alini, a pesquisa foi fundamental para mapear as dores desses jovens e cruzar com a visão interna das empresas, porque a convergência entre os dois lados pode ser determinante para a construção de políticas institucionais de fato efetivas.
“Acredito que outro grande diferencial da nossa pesquisa é o olhar voltado para mediação cultural e aprendizado mútuo entre jovens e empregadores, buscando convergências em vez de antagonismos. A gente não quer apontar vilões ou reforçar estereótipos. Queremos que as empresas tenham uma juventude cada vez mais capacitada e engajada, mas também reconhecemos que os jovens precisam de estímulos”, reforça Alini.
A pesquisa comprova que jovens desejam se estabilizar em seus empregos tanto quanto as empresas desejam reter seus colaboradores. Entender que os pontos em comum falam mais alto do que as divergências pode ser a chave para um futuro jovem promissor e estável no mercado formal.